outubro 01, 2010

A comida na Idade Média

Para quem pensa que na História só é levado em consideração os aspectos políticos e econômicos, irá perceber que o cotidiano é mais marcante na construção social do que se imagina.
M.Ouriques

Os séculos seguintes a queda do Império Romano não pareciam muito interessados nas possibilidades culturais do tema culinário.
Até o ano de 1300, as principais fontes são as listas de compras, os registros de despesas de cozinha e as atas notariais, que, por exemplo, permitem aos historiadores deduzir as dietas, o cardápio ou os costumes a partir do tipo de panelas, fogões e grelhas que formavam o arsenal de cozinha deixados nos espólios.
A partir do século XIII, com uma maior difusão da escrita, os manuscritos culinários se multiplicam, primeiro como conjuntos de receitas transcritas de tradição oral e, depois, como livros de cozinha com receitas novas, escritos por cozinheiros ligados á casas reais ou eclesiásticas.
Um longo processo levou a publicação do primeiro livro de cozinha, impresso em Paris em 1486, levou o título de LE VIANDIER (somente 80 das 230 receitas provinham dos manuscritos: as demais eram novas, adicionadas por seu editor) – 23 edições.
A data da publicação coincide com a exploração do litoral da África Ocidental por Diego Cão.
Um caso paradigmático é aquele da pimenta-malagueta, que tinha sido introduzida confidencialmente na Europa, proveniente da África, por volta do século XIV.
Nos quatrocentos a pimenta foi adotada pela elite francesa, tinha um custo muito alto era considerada a “semente do paraíso”.
Ao concluir-se no século XV, quando a exploração do litoral africano revela que a semente do paraíso provém de um arbusto da África Ocidental que não merece tão divina denominação.
Logo depois seria redescoberta nas florestas de Cuba e da Guatemala, e, no final do século XVI, a pimenta volta a ser a especiaria dominante devido à ampliação do público que utiliza os livros de cozinha.
O historiador espanhol Felipe Fernández-Armesto propõe sete revoluções na história da comida: 1. invenção da arte de cozinhar;
2. descoberta da comida como aglutinante social;
3 criação do gado;
4 início da agricultura;
5 uso da comida como diferenciador social;
6 papel da comida nas viagens comerciais de longa distância como agente transformador da cultura;
7. intercambio ecológico de espécies vegetais e animais, também chamado “Intercâmbio Colombiano”.
O chocolate e o tabaco serão produtos de luxo no final do século XVI; os pimentões chegarão até a Ásia; mas, sobretudo, o tomate, a batata e o milho mudarão os costumes radicalmente com a elaboração de uma grande panela diversificada para combater as fomes européias.
Nas obras de caráter literário: nos romances de cavalaria as representações da comida são apenas evocações fantásticas: são oferecidas aos heróis como troféus ou como uma armadilha para envenená-los.
Toda relação desse corpo com a comida ficou confinada ao mundo da cultura popular, sem atingir a textualidade literária até o começo do renascimento, tal como explicou o teórico russo Mikhail Bakthin.
O gosto pela descrição das comidas, ao contrário, começa a se manifestar em alguns textos literários só no final da Idade Média.

Referência

LABRIOLA, Rodrigo. A FOME DOS OUTROS: LITERATURA, COMIDA E ALTERIDADE NO SECULO XVI. Rio de Janeiro: EDUFF, 2007

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